No futebol, poucas perguntas dividem tanto o brasileiro quanto essa.
Afinal, é possível deixar a rivalidade de lado? Ou a história pesa mais do que o momento?
Não se trata de política, economia ou qualquer outro assunto. É futebol. E, no futebol, Brasil e Argentina construíram uma das maiores rivalidades do planeta — feita de gênios, decisões, provocações e episódios que jamais foram esquecidos.
Como apagar da memória a Copa de 1978?
Naquele Mundial, disputado em solo argentino, o regulamento previa um quadrangular semifinal. Brasil e Argentina empataram em pontos. O Brasil fez sua parte, venceu a Polônia por 3 a 1 e colocou sobre a Argentina a obrigação de derrotar o Peru por uma larga diferença de gols para superar o saldo. O resultado foi um inacreditável 6 a 0.
O Peru tinha uma seleção competitiva. Até hoje aquela partida desperta dúvidas, suspeitas e debates que jamais foram totalmente encerrados. Para muitos, foi um dos capítulos mais controversos da história das Copas.
Doze anos depois, outro golpe.
Na Copa de 1990, o Brasil era melhor, pressionava, criava chances… até que Maradona encontrou Caniggia em um passe magistral. Gol argentino. Eliminação brasileira.
Anos depois veio a revelação que tornou aquela derrota ainda mais indigesta: o próprio Maradona admitiu que uma garrafa com água misturada a um sedativo foi oferecida ao lateral Branco durante a partida. Branco relatou que passou mal após beber. Um episódio lamentável, incompatível com o espírito esportivo.
E como esquecer das constantes provocações?
Dos cantos ofensivos, das ironias e, mais recentemente, dos inúmeros casos de racismo sofridos por jogadores brasileiros em competições disputadas em território argentino? Um problema grave que ultrapassa a rivalidade e exige punições exemplares.
Mas o futebol tem dessas ironias.
Enquanto muitos brasileiros ainda carregam essas lembranças, a Argentina escreve mais um capítulo de sua história em Copas. Acaba de vencer a Inglaterra de virada, por 2 a 1, em uma semifinal histórica, e volta a disputar uma decisão mundial — agora contra a Espanha.
E é impossível não perceber o simbolismo. Sempre que Argentina e Inglaterra se enfrentam em Copa do Mundo, a memória da Guerra das Malvinas volta à tona. Foi assim em 1986, na partida da “Mão de Deus” e do “Gol do Século”. Foi assim novamente agora, com os argentinos transformando o jogo em mais um capítulo de afirmação nacional diante do velho adversário europeu.
Ao mesmo tempo, é impossível negar o talento que sempre existiu do outro lado da fronteira. A Argentina produziu craques que marcaram gerações e segue demonstrando uma capacidade impressionante de formar equipes competitivas, capazes de chegar, mais uma vez, à final do mundo.
Então… torcer ou não torcer para a Argentina?
Cada torcedor terá sua resposta.
Opinião sem respeito vira ataque. Respeito sem opinião vira silêncio.