A lente de uma câmera pode captar muito mais do que um feixe luz capaz de transformar um segundo em memória. Diante da natureza, a lente deixa de ser um mero observador e passa a ser uma testemunha, capturando o que é belo, raro e até uma fração do sagrado que passa, muitas vezes, despercebido aos olhos humanos.
Assim, aliando o olhar atento da biologia à sensibilidade artística, o biólogo e fotógrafo Julio Cesar Schadek Barbosa, natural de Presidente Prudente (SP), desenvolve um trabalho de registro da biodiversidade focado em aves, insetos e flores. Além disso, com as imagens, ele contribui para uma plataforma que funciona como um banco de dados de diferentes espécies que são estudadas por cientistas de todo o globo.
Neste Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico, celebrado em 8 de julho, ele compartilha ao ifronteira.com como as duas vertentes podem contribuir para a preservação ambiental.

O que começou como curiosidade despertada por veteranos da faculdade se transformou em uma extensão da própria profissão para o biólogo.
Financiada com o dinheiro poupado de sua bolsa de iniciação científica, sua primeira câmera fotográfica tornou-se a ferramenta ideal para unir a precisão visual da biologia à sensibilidade artística, transformando registros cotidianos de aves, flores e insetos em uma forma de expressão pessoal e científica.
Entretanto, a biologia não foi a primeira opção de carreira para Barbosa, na verdade, ele até mesmo chegou a prestar vestibular para o curso de engenharia aeronáutica.
No cursinho, o profissional gostou tanto de um professor e admirava o trabalho desempenhado por ele que, com base nisso, decidiu seguir o ramo da biologia.
“Eu posso complementar depois com a licenciatura. Mas eu acho que o bacharelado foi o que me abriu muitas portas. Eu fiz muita coisa legal com o bacharelado e, até hoje, continua me abrindo muitas portas”, explica.

Já na metade para o fim do curso, ele passou a acompanhar o amigo veterano, que tinha uma câmera, e surgiu a vontade de também ter o equipamento.
“Foi quando, nessa época, eu já juntava dinheiro, porque eu estava fazendo iniciação científica e tinha a bolsa de pesquisa, então, quase que o dinheiro inteiro da bolsa foi para comprar uma câmera e, depois, o restante foi para comprar uma lente que permitia que eu tirasse fotos mais distantes, e foi assim que surgiu esse interesse, puramente na faculdade, com outros fotógrafos que eu conhecia”, relembra.
Desde então, a fotografia, para Julio Cesar, se tornou uma relação artística.
“Para mim, é a minha arte. Eu sempre tento tirar foto do máximo que eu consigo, do máximo de coisas que eu vejo. Normalmente, as minhas fotos são de flores, insetos e pássaros. Mas o meu foco sempre foi em tirar fotos do máximo que eu conseguisse. Preferencialmente, eu tenho mais preferência em flores e é uma relação artística. Então, para mim, todas as fotos que eu tenho, tantas que estão nas redes sociais, quantas que não estão, são como se fossem as minhas artes. Então eu tenho apego pelas minhas fotos”, complementa.

Para ele, não importa o tipo de fotografia, todas elas são uma forma de arte porque demandam trabalho, estudo e a visão daquilo que você quer fotografar.
“Não é fotografar por fotografar, você fotografa querendo passar uma mensagem através da foto, você está sempre buscando a melhor foto. Então, para mim, tem uma vertente artística nesse sentido de você ter que fotografar, você está sempre buscando as melhores fotos possíveis e a gente acaba sendo bem crítico com o nosso trabalho. Eu sou muito crítico no meu trabalho, muita coisa eu não posto. Mas eu vejo como uma forma de passar o sentimento através de uma coisa que já existe, que, no caso, eu gosto muito de tirar fotos de animais, dentre outras coisas que também podem ser feitas na fotografia, como as pessoas criarem fotos de pessoas através dos retratos, fotos de paisagem, foto em preto e branco, foto colorida. Eu acho que todo mundo que tira no intuito da arte, de passar uma imagem, acaba fazendo a fotografia ser uma forma de arte”, diz ao ifronteira.com.

Ele decidiu unir as duas vertentes ao acreditar que a biologia é uma área do conhecimento que utiliza muito da visão, principalmente, na fauna e flora.
“É o estudo da vida observando a vida. Nesse sentido, a fotografia serve como um registro daquilo que a gente pretende estudar. Eu posso fotografar um pássaro no seu habitat, eu posso fotografar um pássaro se alimentando, qualquer alimentação dele, o ninho, o seu jeito de agir. Então, fotografar acaba que, além de um método de registrar o momento, também é um método de juntar essa parte, de estudar o indivíduo. Então, unir a fotografia à biologia é uma coisa muito importante para o estudo em si”, destaca.
O biólogo conta que seus objetos de fotografia variaram bastante durante o tempo.
“Eu tenho, basicamente, três focos principais, que seriam flores, pássaros e mamíferos, alguns insetos também, mas o principal atualmente são pássaros, mas eu vario bastante. São técnicas diferentes, que você aplica em cada um, mas acaba que você consegue, dependendo do seu equipamento, só fazer algumas trocas, você já consegue fotografar uma abrangência maior de indivíduos. Futuramente, eu pretendo até ter mais opções, mas por enquanto eu tenho essas três, que são os pássaros, as flores e os insetos”, conta ao ifronteira.com.

Para a captura de imagens, atualmente, Barbosa utiliza uma câmera Canon SL3, também conhecida como 250D, que permite fazer a troca da lente, no caso, usa uma para encurtar a distância da foto e outra para médio e lonfo alcance.
“Dependendo do ambiente, da iluminação, eu também posso usar um flash externo, e uma coisa indispensável é o monopé, que é para estabilizar a imagem, principalmente, quando eu preciso de mais luz e a câmera acaba tremendo muito, e a foto pode sair tremendo, então, o monopé é bem importante para ter essa estabilização na imagem”, detalha.
Para o “clique” perfeito, ele recomenda que é necessário pensar no contexto geral.
“As folhas ao redor dão uma diferenciada na imagem, você pode querer o fundo desfocado ou fundo preto, são dois tipos diferentes de técnicas para ter essas fotografias, varia muito do gosto de pessoa para pessoa, a quantidade de detalhes, então para isso tem toda uma preparação. Já para fotos de animais, principalmente os que têm muito movimento, é uma coisa que você já tem que ter predefinido na sua cabeça mais ou menos o que você vai desejar para o final, e na hora que você estiver lá, tira o máximo de fotos possíveis e ajusta elas depois na edição. Que muito além do clique perfeito, a edição é o que mais ajuda, que pode corrigir o ‘clique perfeito’ para uma coisa mais perfeita ainda”, destaca.

Ao ifronteira.com, Julio Cesar conceitua que fotografar a natureza tem duas vertentes: o propósito educacional e a expressão artística.
“O propósito educacional é, basicamente, você tirar fotos para educação ambiental, então a pessoa vai entrar lá, vai ver a foto, vai descobrir que tem certa coisa na região dela, vai ver a diversidade que a gente tem no Brasil, vai descobrir um pouco sobre a que ela vai pesquisando depois, vai instigar ela a pesquisar depois. E tem a expressão artística, que é você tirar uma foto bonita, que pode inspirar uma pessoa a entrar para essa área, ou simplesmente dar alguma emoção naquela pessoa, dependendo do que está sendo transmitido na foto, se for uma foto alegre, se for uma foto triste. Então, eu vejo meio que tudo faz parte de um contexto, essas duas partes, mas elas afetam de maneira diferente cada um”, exemplifica.
Além de publicar nas redes sociais, o biólogo contribui com imagens para o BioDiversity4All, uma plataforma que engloba vários países através do iNaturalist.
“O iNaturalist é como se fosse o site original. O BioDiversity4All é uma vertente portuguesa, que é da região de Portugal, que também acaba sendo bastante usado aqui no Brasil. Mas os dois têm o mesmo banco de dados. Ele funciona de uma forma de você colocar uma imagem e as pessoas te ajudam a classificar aquela imagem, dependendo do que você fotografou, para descobrir qual a espécie que é aquela e você refaz todo o registro de onde foi fotografado, o que tem naquela foto. Então, tudo isso vai fazer com que você consiga fazer um banco de dados melhor. Você consegue pesquisar também espécies, lugares para você achar, onde você pode procurar para achar. Você pode usar em trabalhos também, tem umas regras, mas você pode usar em trabalhos acadêmicos, imagens para exemplificar ou utilizar os dados deles mesmos para fazer algum trabalho. Isso é permitido, claro, dando diretamente os créditos”, explica sobre o funcionamento ao ifronteira.com.

Ele tambem reforça que qualquer um pode utilizar a plataforma, seja para cadastro ou identificação das espécies, onde é possível obter uma boa troca de conhecimento.
“O BioDiversity4All ajuda para você comparar a sua foto com outras fotos e ver o que você pode melhorar, descobrir equipamentos para ser utilizado. Também me ajudou muito a descobrir as espécies que eu não sabia para poder colocar no Instagram, que é outra plataforma que eu uso. Então, ele é uma plataforma que te dá muitas possibilidades de descobrir coisas novas para aperfeiçoar ainda mais o seu trabalho”, afirma.

No momento, Barbosa disse que não tem tanto contato com pesquisadores que fazem essa parte da fotografia, mas ele considera que a trófica troca está muito melhor do que era antigamente.
“Antigamente, eu acho que era muito fechado na academia ou, então, o mundo entre as próprias fotógrafos hoje em dia já está bem aberto essa questão de técnicas, contato de cientistas, estudos, artigos. Acho que esse contato está muito mais facilitado e até dentro das plataformas tem um contato muito bom de identificação, de ajuda para identificar, é um contato bem tranquilo com cientistas. Principalmente, nessa parte de identificação de animais, o pessoal, recentemente, tem sido muito bom para ajudar nessa parte, eles têm sido bem gentis com essa ajuda e treinar as outras pessoas para fazerem o mesmo”, pontua.
O biólogo documenta as fotos no computador, todas separadas por data.
As que ele considera que ficam boas, nítidas e de fácil identificação, costuma postar no BioDiversity4All. Já as que mais lhe agradam são publicadas no Instagram @julio_s_barbosa.
“O Instagram é só uma fração mínima do meu trabalho, do que eu fotografo. O BioDiversity4All é uma parte um pouco mais extensa do que eu trabalho, e no meu computador tem o resto gravado, que são fotos que talvez futuramente eu possa colocar no BioDiversity4All”, completa.

Para ele, é importante documentar todas as imagens, até as que o fotógrafo considera “não tão boas”.
“Deixar guardado não é o ideal, o ideal é você divulgar. No BioDiversity4All, no Instagram, no Facebook, qualquer método, é importante divulgar justamente para, primeiramente, criar vontade em outras pessoas de seguirem essa área ou de se interessarem pelo assunto dos animais. Dessa forma, a gente conscientiza à preservação ambiental, a educação ambiental, para que a gente consiga cada vez mais preservar esses animais e não só ignorar eles e, por conta de n fatores, eles acabarem sendo extintos por razões humanas. Então, eu acho que isso é a verdadeira importância de documentar. Também tem importância acadêmica, através das nossas fotos, as pessoas podem usar em estudos, através das localizações, quando a gente tira as fotos, elas também podem usar estudos, que vai acabar garantindo que a gente saiba onde que essa espécie ocorre e dentre outras variáveis possíveis que a parte acadêmica acaba influenciando”, justifica.
Julio ainda ressalta que, muitas vezes, as pessoas vêem os fotógrafos utilizando equipamentos com valor muito alto e, devido ao custo, desistem de se aventurar na fotografia.
“Só que, para começar na fotografia, a pessoa não precisa ter um investimento desse nível. A fotografia é um hobby caro, sim, é um hobby caro, mas não é tão caro quanto você vê preço. Acho que as pessoas são muito influenciadas em sempre querer ter o melhor equipamento, a melhor coisa, só que você nunca começa com o melhor equipamento. Então, o equipamento básico de fotografia você consegue comprar hoje, no mercado de usados ou até no mercado de itens novos, por um preço bem acessível. O meu equipamento é um equipamento intermediário, mas ele já foi consideravelmente acessível por um equipamento de foto intermediário. Então, as pessoas têm que olhar os equipamentos básicos com um pouco mais de carinho e ver que elas conseguem também tirar boas fotos, boas imagens, conseguem fazer coisas incríveis com equipamentos baratos de entrada, que conforme elas vão avançando no hobby, elas vão sendo cada vez melhores na fotografia, tirando fotos cada vez melhores, conseguindo imprimir a arte deles cada vez melhor. E futuramente, conforme ela for ganhando dinheiro, seja com a fotografia ou não com a fotografia, ela consegue melhorar o equipamento de outras formas”, explica ao ifronteira.com.
Ele também finaliza que, na fotografia de animais, o importante é ter o registro.
