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Mais do que romances açucarados, obras de Jane Austen refletem a sobrevivência feminina da classe média no século XIX

Autora enxerga o papel da educação feminina sendo mais essencial para as mulheres do que o casamento.

Por: Júlia Guimarães, ifronteira.com
18/07/2026 às 06:00
Jane Austen retrata mulheres à frente do seu tempo |
Jane Austen retrata mulheres à frente do seu tempo | Foto: Jane Austen Brasil

Reduzir Jane Austen a uma escritora de romances açucarados é um erro de leitura que ignora a forte veia realista e econômica de suas obras. 

Segundo a doutora em estudos linguísticos, Adriana dos Santos Salles, as protagonistas de Austen não buscavam apenas o amor, mas a sobrevivência digna em uma época em que o casamento era a única transação financeira possível para as mulheres da classe média rural inglesa.

 

“São personagens consideradas mulheres resistentes, resilientes. Na verdade, mulheres à frente do seu tempo, cada qual com uma experiência completamente diferente da outra, dos seis livros principais que eu estou focando aqui nessa resposta. As protagonistas exercem uma função muito importante, no eu consigo imaginar que é entender o que é a formação feminina. Austen mostra os problemas de falta de estudo, falta de recurso financeiro, as mulheres serem preparadas unicamente, ali da classe média rural inglesa, serem preparadas unicamente para casamento”, aponta Adriana.

 

“O casamento era a melhor forma de sobrevivência para a mulher no século XIX, na Inglaterra, porque ela passava dos braços do pai para o marido com uma quantia, que era o dote, e esse homem, esse marido era responsável pelo sustento dessa mulher para o resto da vida. Então, à mulher não era concedido nenhum tipo de fonte de renda ou uma mesada por parte do pai ou administração, mesmo dos recursos financeiros do pai. Porque, primeiro, elas não frequentavam escola, e depois eram consideradas que eram burras, não sabiam negociar, podiam ser passadas para trás. Nesse sentido, as personagens da Jane Austen buscam casamentos que não são casamentos como negociação para que elas possam ter um futuro digno, uma velhice digna. Todas elas buscam casamento por amor, o que era algo extremamente inédito, isso é um fenômeno do século, no final do século XIX para o século XX, esse casamento por amor, por interesse de sentimentos e não, necessariamente, interesse financeiro”, complementa.

 

Adriana também afirma que, assim como qualquer outro escritor, a Jane Austen reflete o pensamento da sua época, no sentido em quecoloca as experiências femininas em destaque, porque não era muito comum falar sobre as imências femininas, muito menos a partir de uma escrita masculina. 

Então, a partir do olhar feminino para a vida dessas mulheres, é que foi possível conhecer as dificuldades, o dia a dia daquelas mulheres. 

 

“Mas lembrando que a Jane Austen retrata as mulheres da classe média, ela não retrata empregados e muito menos a nobreza”, ressalta. 

 

A professora também compartilha que, no Brasil, existem inúmeros estudiosos fazendo pesquisas sobre Jane Austen, o que é bem diferente do quadro que existia no início do século XXI.

 

“Quando eu comecei a escrever sobre Jane Austen, eram poucas as pesquisas, mesmo porque não havia catalogação das pesquisas antes na internet. Então, essas pesquisas ficaram reclusas nas bibliotecas das suas respectivas universidades, quando eram, faziam parte de acervos de mestrado, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Hoje em dia, existe pesquisa de tudo, de várias áreas teóricas: economia, direito, a teoria literária, a questão tradução, a questão da recepção, a questão das adaptações e releituras, quer seja para o cinema, para a televisão, ou para novas formas de releitura, como quadrinhos, como mangás. Temos aqui, no Brasil, cordel, por exemplo, novelas, musical, aqui no Brasil, a gente tem novela inspirada em Jane Austen, peças de teatro”, conta ao ifronteira.com

 

Não teve o devido reconhecimento

 

Marcelle Vera Schicotti, graduanda da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara (SP), pontua que Jane Austen não teve o reconhecimento que merecia em sua época, sendo um período em que as mulheres que escreviam ainda eram vistas com maus olhos. 

 

“Com isso, muitos críticos dizem que a biografia construída ao redor de sua figura, sendo até mesmo um exemplo a destruição de muitas cartas pela sua irmã Cassandra, foram uma tentativa de proteger a sua imagem, diminuindo ou apagando características de sua personalidade que não seriam bem vistas. Apesar de todas as dificuldades, Jane Austen ainda conseguiu se consolidar como uma escritora em seu tempo, mesmo que, ou porquê, suas críticas sociais não fossem percebidas por todos. Por isso, eu pretendo, inclusive, reler muitos de seus livros, pois agora percebo como fui enganada por suas estratégias narrativas, porque os finais felizes de seus romances não são tão felizes quanto parecem, demonstrando o único destino possível para as mulheres de seu tempo: se tornar uma esposa, já que muitas das protagonistas amam, claramente muito mais os seus pares, do que o contrário”, esclarece.

 

Marcelle também ressalta que há a visão errônea de que ao abordar assuntos ditos domésticos, Austen estaria se distanciando da exploração da psicologia humana e excluindo aspectos sociais e econômicos de seu enredo. 

 

“A distinção feita pela própria protagonista Emma, em um diálogo com Harriet Smith, entre as mulheres solteiras pobres e ricas, ilustra bem o papel da segurança financeira; pois, enquanto as primeiras seriam objeto de chacota da sociedade, as de alta classe social representariam a independência. Por fim, um último exemplo é como ‘Razão e Sensibilidade’, desenvolve as injustiças que são cometidas na distribuição da herança”, explica. 

 

Assim, a estudante resume que a autora enxerga o papel da educação feminina, sendo mais essencial para as mulheres do que o casamento. 

 

“Nesse aspecto, é interessante citar a existência no direito inglês de algo denominado ‘coverture’, uma doutrina que estabelecia a passagem dos bens de uma mulher para o seu marido, como também a perda de sua identidade legal. Esse fato é um ponto fundamental para entender como o final de ‘Emma’ não é tão feliz quanto parece, pois a protagonista perde a sua independência ao se casar, enquanto o Senhor Knightley consolida a sua propriedade. Outro aspecto também interessante de ser comentado é como Jane Austen defende em seus romances a educação feminina, demonstrando a sua importância, como também o recurso necessário para a sua realização: o dinheiro”, conceitua. 

 

“A própria autora focou em seu desenvolvimento profissional, não atendendo aos padrões da época e permanecendo solteira. Por isso, acredito que Jane Austen ficaria muito satisfeita em ver como agora as mulheres possuem mais opções em relação ao seu futuro, com a possibilidade de atuarem em diferentes profissões. Por fim, é importante comentar como Jane Austen, do mesmo modo que Virginia Woolf [1882-1941], sempre percebeu a relevância da segurança financeira para que a mulher pudesse desempenhar outros papéis, como o de escritora”, completa.