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De livros raros em sebos a best-sellers: O amadurecimento das editoras brasileiras na publicação de Jane Austen

‘O casamento era a melhor forma de sobrevivência para a mulher no século XIX’, explica a doutora em estudos linguísticos Adriana dos Santos Salles.

Por: Júlia Guimarães, ifronteira.com
18/07/2026 às 06:01
Adriana dos Santos Salles, doutora em estudos linguísticos, traduziu três livros da autora no Brasil |
Adriana dos Santos Salles, doutora em estudos linguísticos, traduziu três livros da autora no Brasil | Foto: Jane Austen Brasil

De Colin Firth em 1995 com “Orgulho e Preconceito” ao fenômeno recente de Bridgerton, as adaptações audiovisuais continuam sendo a principal porta de entrada dos brasileiros para o universo de Jane Austen (1775-1817). Segundo a doutora em estudos linguísticos Adriana dos Santos Salles, o sucesso de heróis irresistíveis como Fitzwilliam Darcy na cultura pop funciona como um motor para o mercado editorial, impulsionando os espectadores a buscarem o texto canônico original nas livrarias.

Ao ifronteira.com, Adriana explica que essa busca que começa nas telas e termina nas páginas encontrou um mercado editorial brasileiro maduro e altamente estratégico. 

 

“Aqui no Brasil, na minha pesquisa de doutorado e também de outros pesquisadores, existe essa tendência de mostrar que os resultados demonstram que o acesso à Jane Austen se dá, inicialmente, pelas adaptações literárias de filmes e televisão para depois essa audiência, esse telespectador, procurar os livros para leitura. Porém, com a questão do sucesso de Bridgerton, a Jane Austen acabou se tornando mais popular ainda porque a gente tem ondas de popularidade da Jane Austen aqui no Brasil”, pontua.

 

Ou seja, se nas décadas de 1970 e 1980 as traduções de Austen eram escassas e restritas a sebos, o início do século XXI marcou uma virada editorial. 

 

“Depois de 1995, 1996, por causa das publicações, dos lançamentos de ‘As Patricinhas de Beverly Hills’, que é uma adaptação de ‘Emma’, ‘Emma’, de 1996, com a Gwyneth Paltrow e ‘Orgulho e Preconceito’, com Colin Firth, que não chegou ao Brasil enquanto série de TV, mas teve sua repercussão no mercado editorial, e começaram a fazer novos lançamentos. Mas foi a partir do início do século XXI, portanto, nos anos 2000, que as editoras do Brasil acordaram e perceberam que não havia edições mais publicadas, a gente só encontrava os livros em sebo, e nesse sentido, despertou para que a Jane Austen fosse tão popular as adaptações ou releituras”, descreve. 

 

Adriana conceitua que o intetesse do público pelas obras se dá, principalmente, pelo mote do romance

 

“Basicamente, aquela fórmula: os personagens se encontram, se conhecem, a princípio, se odeiam, tem algum impasse no relacionamento deles e, depois, eles passam por um processo ‘de crescimento’. Existe uma evolução desses personagens até para desprender de preconcepções, como é o caso de ‘Orgulho e Preconceito’, e aí eles são felizes. Só que a Jane Austen não promete um ‘felizes para sempre’. Isso aí é um erro de leitura ou é a gente que projeta esse futuro para os personagens, porque ela encerra os livros antes mesmo da cerimônia de casamento. Os casamentos são imaginados por parte da nossa leitura a partir dos finais felizes de cada livro. Então, o interesse do público se dá, principalmente, para conhecer. Tem muita gente que queria viver naquela época, de espartilhos, sem banheiros adequados como a gente tem hoje, sem acesso a essa higiene e vigilância sanitária que nós temos hoje. Mas é a idealização daquela época, daquele momento, como se fosse mais fácil viver naquela época, para as mulheres, por exemplo, porque elas tinham pouquíssimos direitos assegurados”, aponta a pesquisadora. 

 

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Adriana dos Santos Salles, doutora em estudos linguísticos, traduziu três livros da autora no Brasil | Foto: Cedida

 

Realismo

 

Conforme a professora, o gênero na literatura no qual a Jane Austen se encaixa é o realismo inglês.

 

“Ela é chamada de romântica por uma questão, principalmente, aqui no Brasil, da palavra ‘romance’ significar sentimentos, relacionado a sentimentos, e a palavra ‘romance’ significar o gênero, o gênero literário. Então, isso causa uma certa confusão, mas eu acredito que ela colocava muitas questões econômicas, de ordem econômica e também de direito das mulheres”, esclarece ao ifronteira.com

 

Adriana exemplifica que possui alunos orientados que fazem pesquisas sobre direito na literatura a partir das obras de Jane Austen. 

 

“Então, dá para explorar a economia. Recentemente, eu presentei um trabalho sobre economia na literatura do século XIX. Então, quantas as mulheres que escreveram lá no século XIX, elas tinham essa visão econômica do processo, da questão financeira que rodeava a vida delas. Então, na minha opinião, ela era uma realista que abordava questões de ordem financeira, de ordem moral, de ordem legal e também, porque não, de ordem romântica nos seus livros. Os temas sociais e políticos, às vezes, é uma questão até controversa quando algumas pessoas analisam a Jane Austen, porque eles consideram a Jane Austen uma escritora que não entrou muito nessa parte histórica, ela não explicitava muito bem o contexto histórico. Mas, se a gente for olhar algumas questões bem específicas da vida e da obra da Jane Austen, ela coloca a questão, por exemplo, em ‘Orgulho e Preconceito’ da milícia, do exército inglês, em Merritton, por exemplo, o que que o exército estava fazendo numa cidade no vilarejo, como Merritton, nesse fictício. Na verdade, eles estavam de passagem, mas passagem porque o exército era um exército, porque o exército estava marchando em direção a algum lugar. Então, isso não é, na minha opinião, ficar isenta de falar sobre a política, sobre a questão histórica também. Só que aí não dá para também colocar na escrita de uma mulher de século XIX, uma escrita feminina, a responsabilidade de falar sobre o contexto histórico, já que a ela cabia apenas às vivências, às situações da porta da casa para dentro e os homens é que podiam ter experiências, estudar e participar da política e ter profissões, ou seja, da porta da casa para fora”, conceitua. 

 

A doutora também acredita que a autora antecipou algumas questões que viriam a acontecer mais de 50 anos depois de sua morte, como emancipação feminina, e 100 anos também após a morte, como questão do direito ao voto. 

 

“Jane Austen colocava uma situação, uma sociedade mais igualitária para as mulheres naquela época, disfarçada de casamento romântico, disfarçada também de ironia, porque ela usava bastante ironia para fazer essas críticas. Quanto à questão da mulher, especificamente, da mulher do século XIX, que pode ser considerada na era moderna, ela já criticava ou já discutia o papel dessas mulheres como seres racionais diante desses desafios sociais nos quais elas enfrentavam. Então, assim, acredito que ela deixa uma marca no sentido de nos mostrar, nos dar, pelo menos, um vislumbre do que era viver enquanto mulher no século XIX”, ressalta.

 

Assim, a autora revolucionou o mundo dos romances por trazer a questão do realismo.

 

“Ela trouxe o que realmente acontecia, estava diante dos olhos dela, como ela trouxe o trivial para dentro das páginas dos livros. E, isso também interessa, a vida das pessoas também interessa, principalmente, se você conseguir fazer um contraponto entre o que as pessoas viveram, viviam e o que você vive atualmente, dá ótimas discussões interessantes”, conta. 

 

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Autora inglesa estampa a cédula de 10 libras esterlinas, na Inglaterra | Foto: Bank of England

 

Senhor Darcy

 

Mesmo sendo um fênomeno da cultura pop, o Mister Darcy não é o personagem mais importante de “Orgulho e Preconceito”. 

 

“Na verdade, o personagem mais importante é a Elizabeth Bennet. Eu acredito que essa força do impacto que o Fitzwilliam Darcy tem, é devido, principalmente, às adaptações para o cinema e para a televisão, começando com Colin Firth, em 1995, e Matthew McFadden de 2005. Então, é bastante complicado superar esse arquétipo de herói, ranzinza, mas herói irresistível que Jane Austen escreveu. Eu acredito que ela não teve essa intenção de construir o arquétipo masculino mais interessante ou mais repetido da literatura da cultura pop, mas eu acredito que ela fez com esse objetivo de fazer um contraponto com o personagem que é a âncora de Orgulho e Preconceito, que é a Elizabeth Bennet”, descata ao ifronteira.com.

 

A doutora em estudos linguísticos afirma que a autora continua muito atual porque conversa sobre temas que ainda são muito relevantes, pertinentes para mulheres e também para a questão dos relacionamentos de um modo em geral.

 

“A gente tem sempre que aprender um pouco com a Jane Austen e também conseguimos fazer relações muito interessantes sobre as relações que os casais viviam no século XIX com as relações que hoje vivemos, obviamente, com muito mais liberdade de escolha e de experiências”, completa.

 

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Adriana coordena estudos sobre a romancista inglesa | Foto: Jane Austen Brasil

 

Livro como objeto de desejo e experiência

 

Hoje, o livro físico deixou de ser apenas um meio de transmissão de texto para se transformar em um objeto de desejo e de experiência estética.

 

"O mercado brasileiro está centrado na questão do livro como experiência. Temos editoras que transformam as traduções em traduções de qualidade, obviamente, mas tem inserção de paratexto, como notas de rodapé, prefácio, pós-fácios, que interessa muito esse público que já conhece a história, mas já quer aprofundar mais com escritos de teóricos brasileiros ou teóricos do exterior, isso é importante no meu ponto de vista", explica Adriana Salles.

 

Edições caprichadas transformam os romances em objetos de decoração, e algumas editoras, como a Antofágica, vão além, agregando videoaulas aos volumes ilustrados.

 

“O livro se torna um objeto de desejo, no sentido de as pessoas comprarem mais edições porque cada uma é mais bonita do que a outra, também tem a oferta, especificamente, de uma editora que é Antofágica, que são as videoaulas, além dos paratextos, prefácio e pós-fácio”, complementa.

 

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Site divulga trabalhos relacionados à autora há 18 anos | Foto: Jane Austen Brasil

 

Paixão que nasceu na graduação

 

A doutora em estudos linguísticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com curso de especialização em Jane Austen na Universidade de Oxford, na Inglaterra, e um outro sobre a Abadia de Northanger, em Hillsdale, nos Estados Unidos, disse que sua paixão pela autora começou, justamente, na universidade. 

 

“Quem me apresentou a Jane Austen, especificamente, foi a professora Thaïs Flores Nogueira Diniz, atuante na UFMG até hoje. A gente estudou Emma, porque tinha outros autores do século XIX para estudar e, para mim, foi uma experiência muito interessante, sob o ponto de vista de introdução também teórica, sobre análise dos romances do século XIX. Posteriormente, logo que eu me formei, em 2001, eu fui para a Universidade de Nova Iorque, e lá, na cidade de Nova Iorque, eu tive a oportunidade de comprar todos os livros, de ler com mais profundidade, então, eu fui me preparando para, quando foi em 2008 criar o Jane Austen Brasil, o blog que hoje é site”, compartilha.

 

Adriana também traduziu três obras da autora inglesa, sendo “Emma” (1815), “Mansfiel Park” (1814) e “Razão e Sensibilidade” (1811). 

 

“Traduzir Emma e Mansfield Park foi um desafio para mim. Eu me senti bastante honrada pelos convites das editoras. O processo de tradução exigiu um trabalho intenso, um mergulho na obra da Jane Austen, não só como leitora, mas também analista da língua, da língua inglesa, em contrapartida para a adaptação para a língua portuguesa. Eu considero a tradução uma adaptação e não simplesmente verter de um texto para o outro porque, dadas as devidas circunstâncias, é quase impossível transmitir exatamente o que a Jane Austen tinha intenção com seu texto”, relembra.

 

Adriana ainda é presidente do site Jane Austen Society of Brazil” e filiada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul como pós-doutoranda em literatura inglesa.

 

“A Jane Austen Society of Brazil começou com um blog chamado Jane Austen Brasil há exatos 18 anos e a society tem 17 anos. Ela surgiu com o objetivo de alinhar, de associar a minha atuação acadêmica com a função de divulgadora da Jane Austen, da vida e obra da Jane Austen aqui no Brasil. Assim eu fiz nos moldes da Jane Austen North America e da Jane Austen Society no Reino Unido”, descreve.

 

Ela também integra a Jane Austen Society of North America e a Jane Austen Society of Australia (Jasa).

 

“Fazer parte da Jane Austen Society of North America e da Jane Austen da Jasa, que é da Austrália, para mim é um momento, uma situação, uma possibilidade de intercâmbio de interesses em comum, que é a Jane Austen, literatura do século XIX, e também oportunidade para aprender ou para replicar as pesquisas que estão sendo feitas aqui no Brasil, especificamente, com os meus orientandos e também as minhas pesquisas em particular”, conta ao ifronteira.com.

 

As publicações de Adriana estão centradas na vida, obra, adaptações e traduções de Jane Austen. 

 

“Eu divido, basicamente, nesses quatro eixos, a vida e obra, eu já escrevi sobre a Jane Austen em ser conservadora ou liberal, capítulo de livro, artigos apresentados em congresso, comunicações em congresso, sobre as obras, algumas análises específicas sobre o perfil das mulheres em Jane Austen, especificamente, em Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade, a questão das personagens serem consideradas mulheres à frente do seu tempo, principalmente uma bastante apagada no rol de livros da Jane Austen, que é a Anne Elliot, de Persuasão, não é um livro mais lido, eu creio que o mais lido seja Orgulho e o Preconceito, então, a Anne Elliot tem uma fala muito importante, que é sobre a questão do amor perdurar por mais tempo, a questão das mulheres escritoras, porque que não se conhecia muito bem os sentimentos das mulheres, principalmente, porque não se dava ouvidos para essa escrita de autoria feminina. O outro eixo é a questão da recepção da Jane Austen enquanto comunidade de fãs, foi o tema da minha tese de doutoramento na UFMG em 2018, também analiso para prefácios ou pós-fácios de editoras de outras edições traduzidas da Jane Austen, sobre a questão das adaptações de cinema e televisão, sobre a popularidade da Jane Austen, aqui no Brasil principalmente, a Austen chega ao público, principalmente, pelas adaptações cinematográficas, para depois as pessoas interessarem em ler o livro, já que é uma leitura canônica que não chega a todo mundo, mas quando o filme chega antes, é bem possível desses futuros leitores acessarem o livro também para fazerem uma comparação. E o último eixo atualmente é o que eu tenho abordado. Eu leciono no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais para o curso de letras, tecnologias de edição, então eu tenho feito pesquisas relacionadas a essas questões de recepção do livro, a questão do livro como objeto, o livro não é mais apenas uma ponte entre o que Jane Austen escreveu e o público, o público leitor”, finaliza ao ifronteira.com.

 

 

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Adriana dos Santos Salles, doutora em estudos linguísticos, traduziu três livros da autora no Brasil | Foto: Cedida