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Muito além do romance: Por que as heroínas de Jane Austen inspiraram mulheres a buscar a própria voz?

Estudante Marcelle Vera Schicotti reflete sobre heroínas em constante aprendizado.

Por: Júlia Guimarães, ifronteira.com
18/07/2026 às 06:02
Primeiro livro da autora lido por Marcelle foi 'Razão e Sensibilidade' (1811) |
Primeiro livro da autora lido por Marcelle foi 'Razão e Sensibilidade' (1811) | Foto: Cedida

É muito comum nos pegarmos imaginando como seria viver em uma época, em uma visão romantizada, com vestidos, bailes, espartilhos e mocinhos de tirar o fôlego de todo e qualquer leitor de um bom e velho romance. Mas por que ainda nos identificamos tanto com heroínas criadas há dois séculos? Para Marcelle Vera Schicotti, graduanda da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara (SP), as personagens de Jane Austen (1775-1817) continuam atuais porque não nasceram perfeitas, mas em constante aprendizado. 

Em entrevista para a série de reportagens especiais sobre a autora inglesa, neste dia em que se celebra o aniversário de morte, datado em 18 de julho de 1817, a estudante, natural de Presidente Prudente (SP), discute como a literatura de Austen dialoga com as pressões modernas sobre a mulher solteira e a urgência da independência financeira feminina.

Marcelle compartilha ao ifronteira.com que Jane Austen chegou até ela em um momento complicado de sua vida, quando estava internada. 

 

“Mas, depois desse primeiro contato, que aconteceu quando eu tinha 15 anos, eu nunca mais a abandonei, transformando ler todos os seus livros em uma meta pessoal”, afirma. 

 

Além disso, o primeiro livro lido foi “Razão e Sensibilidade” (1811), que, por curiosidade,  a nova adaptação cinematográfica de Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility) também estreia no Brasil em 15 de outubro de 2026.

 

 

“O curioso é que a minha mãe também estava lendo ele junto comigo, mas ela desistiu logo por o achar muito triste”, compartilha. 

 

A tese de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Marcelle será um projeto de mestrado, orientado pela professora doutora Natália Barcellos, em que pretente realizar uma comparação entre Jane Austen e William Shakespeare, analisando a condição feminina em cada autor.

A estudante já leu, ao todo, cinco livros da autora, sendo eles: 

 

  • “Razão e Sensibilidade”,
  • “Mansfield Park” (1814),
  • “Orgulho e Preconceito” (1813),
  • “Persuasão” (1818), e
  • “A Abadia de Northanger” (1817).

 

“No momento, eu estou lendo ‘Emma’ [1815], porém pretendo também reler alguns livros, que li quando ainda era adolescente e não tinha a mesma perspectiva de hoje. Em relação ao qual eu mais me identifico, é uma pergunta muito difícil de responder [risos], porque gosto muito de vários. Mas, acho que no momento, eu fico com ‘A Abadia de Northanger’, pois li recentemente e me diverti muito com as várias críticas que são construídas, em relação ao papel do romance e da própria figura da heroína”, define ao ifronteira.com

 

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Gata de Marcelle tem o nome em homenagem à autora | Foto: Cedida

 

Protagonistas

 

Marcelle avalia que, mesmo as heroínas de Austen sendo muito diferentes entre si, a seu modo, buscam a liberdade, seja para se posicionar e/ou para sentir. 

 

“Os livros, com os quais eu tive contato, demonstram o amadurecimento de suas protagonistas de diferentes formas, como através da percepção do poder de suas vozes, resultando em uma maior expressão de seus sentimentos e vontades próprias, ou do reconhecimento de seus erros, com uma posterior mudança de postura. Desse modo, as heroínas de Austen não são perfeitas, mas estão em constante aprendizado sobre si mesmas e seu lugar na sociedade”, reflete. 

 

Já ao ser questionada se ela se enxerga em alguma das personagens, a estudante, entre risadas, alega ser uma pergunta difícil. 

 

“Me vejo em várias delas, mas, no momento, irei escolher Anne Elliot, de Persuasão, porque estou no caminho de encontrar cada vez mais segurança para expressar a minha voz, como também de compreender a minha Eu do passado sem julgamentos. Além disso, a personagem é uma ótima observadora, um papel que eu, geralmente, me pego exercendo”, define. 

 

Assim, ela também explica que o amadurecimento das protagonistas pode ser visto no momento em que elas encontram a própria voz. 

 

“Tratava-se de um tempo, em que a opinião feminina não possuía quase nenhum valor e também não era incentivada a ser expressa, sendo restritas às ocasiões em que as mulheres poderiam falar, principalmente, se elas fossem solteiras. Desse modo, a subjetividade feminina era raramente explorada em romances, ou se explorada, abrangia, frequentemente, os preconceitos da época. Com isso, Jane Austen inovou ao relatar como as suas protagonistas encontram o autoconhecimento”, ressalta.

 

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Primeiro livro da autora lido por Marcelle foi 'Razão e Sensibilidade' (1811) | Foto: Cedida

 

Livros para ‘mulherzinhas’

 

Marcelle aponta que, infelizmente, ainda há quem se refira às obras de Jane Austen como “livros para ‘mulherzinhas’”, tratando-se apenas de temas superficiais. 

 

“Essas críticas demonstram como as pessoas inferiorizam, sem uma análise profunda, as leituras que são, majoritariamente, femininas, juntamente com suas autoras, como se elas não fossem tão cultas quanto os homens, não possuindo a mesma capacidade para a apreciação, ou produção, artística e intelectual. Entretanto, a realidade é que se os homens se propusessem a ler esses livros para ‘mulherzinhas’, eles entenderiam muito mais a condição feminina, parando de repetir os mesmos equívocos”, afirma. 

 

Porém, ela reforça que há um ponto necessário de ser mencionado, que sempre retorna, é a crítica de Charlotte Brontë (1816-1855) sobre a escrita de Jane Austen e, em relação a isso, é importante entender como as duas já estão em épocas diferentes, ocupando também lugares distintos na sociedade.

 

“Jane Austen se referia ao sul e Charlotte buscava escrever sobre o norte da Inglaterra. Além disso, a crítica de Brontë também pode ter sido motivada pelo fato de Jane Austen ser apresentada para ela como o único modelo possível de escrita, representando mudanças, contrárias ao seu estilo, que ela deveria fazer em sua obra, ‘Jane Eyre’ [1847]”, destaca. 

 

Desta forma, a autora continua atual em abordar temas comuns, com os quais ainda é possível se identificar. 

 

“Nós conseguimos nos identificar com o que as suas protagonistas sentem, porque mesmo com grandes avanços sociais, a mulher ainda enfrenta injustiças provocadas unicamente por seu gênero e parece continuamente ter de provar o seu valor para merecer a posição que ocupa. Na atualidade, ainda existe uma cobrança em torno da mulher solteira e da vida amorosa feminina, representada pelas perguntas que se repetem em diferentes contextos: ‘Nossa, mas por que você não namora? Você é tão bonita!’; ‘Nossa, mas ela já mudou de namorado? Não para com ninguém mesmo!’ ou ‘E os namoradinhos?’. Por isso, conseguimos facilmente nos reconhecer nas protagonistas de Austen, porque elas não são mulheres ideais, mas sim que seguem construindo a sua relação com o mundo e descobrindo quem elas querem ser, qual a vontade delas e não o que o outro espera delas”, ressalta ao ifronteira.com

 

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Marcelle compartilhou uma das primeiras edições dos livros da autora, de 1909, reunindo 'A Abadia de Northanger' e 'Persuasão' | Foto: Cedida

 

Adaptações no mundo pop

 

Marcelle afirma que o impacto de Fitzwilliam Darcy na cultura pop, mesmo após 200 anos, foi proporcionado pelas adaptações da personagem.

 

“Enquanto a resposta de Darcy no romance tem um aspecto enigmático, atendendo às características particulares de Austen, que não apresenta vários detalhes sobre a cena de declaração de amor, nas adaptações, o par romântico não tem medo de expressar os seus sentimentos. Em relação a essa perspectiva, é interessante comentar que o Darcy da série de 1995 foi o responsável por espalhar o fenômeno conhecido como ‘Darcymania’, com a famosa cena da personagem usando uma camisa molhada, algo que, inclusive, que foi recriado em ‘Bridgerton’”, descreve.

 

“Eu comecei a pensar nos pares românticos que viraram febre recentemente, Garrett e Dean de ‘Off Campus’, e percebi uma semelhança: as pessoas também elogiam como eles sabem o que querem e não têm medo de demonstrar isso, chamando atenção a forma como eles declaram os seus sentimentos. Por isso, acredito que o Senhor Darcy ainda é impactante por demonstrar a constância de emoções, algo tão raro nos homens atualmente, como também por possuir uma personalidade marcante, com o seu humor, um tanto quanto temperamental, e confiança típicos”, complementa. 

 

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Primeiro livro da autora lido por Marcelle foi 'Razão e Sensibilidade' (1811) | Foto: Cedida

 

Assim, para ela, as adaptações e releituras das obras de Jane Austen são uma ótima porta de entrada para o trabalho da autora, possibilitando a expansão de seu público, sejam elas mais fiéis às composições originais, ou uma tentativa de atualizar as suas obras, como é o caso de “As Patricinhas de Beverly Hills” (1995). 

 

“Entretanto, o problema está quando as adaptações e releituras se tornam o fim e não o começo do contato com os romances da autora, pois várias adaptações acabam por enfatizar o aspecto romântico, ocultando, ou diminuindo, as críticas sociais, o que resulta na ideia de que Austen difundia finais felizes como os de contos de fadas. Nesse caso, as adaptações se tornam perigosas, por promoverem visões errôneas sobre a perspectiva de Austen, apagando o seu realismo. Por isso, é importante que o telespectador busque conhecer a obra original que inspirou o seu filme/série preferido, de modo a ampliar o seu conhecimento sobre a importância de Jane Austen”, destaca. 

 

Outro ponto que Marcelle aponta é que a existência de alguns personagens considerados “bobos”, ou até mesmo caricatos, foi construída através das adaptações, pois nos romances de Jane Austen, é possível observar melhor as diferentes perspectivas existentes sobre o caráter de uma mesma pessoa, ou compreender de modo mais amplo o porquê de suas ações, mesmo que, às vezes, também possamos ser enganados pela ironia do narrador, se não permanecermos atentos na leitura. 

 

“Por exemplo, a Senhora Bennet buscava tanto o casamento de suas filhas, porque essa era a única forma de garantir segurança financeira para elas, ou a Srta. Bates, em que muito da visão que temos acesso sobre ela é, na verdade, sob a perspectiva preconceituosa de Emma. Dessa maneira, ambas as personagens demonstram como a crítica ao sistema social permeia toda a obra, aparecendo também nas personagens em que o público menos espera”, exemplifica. 

 

Assim, ela sintetiza que os cenários descritos pela autora são uma epresentação de ambientes que faziam parte do cotidiano das mulheres, ou de lugares com os quais a própria autora já teve contato.

 

“Jane Austen somente escrevia a respeito daquilo que havia conhecimento, sendo as narrativas um retrato da realidade. Entretanto, através dos espaços selecionados, também podemos perceber como cada personagem se sente em relação a ele, explorando a psicologia humana”, finaliza ao ifronteira.com.

 

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Marcelle costuma ler os livros de Jane Austen no texto original, em inglês | Foto: Cedida