Faleceu, na manhã desta quinta-feira (11), aos 83 anos, a professora doutora Édima de Souza Mattos em decorrência de problemas cardíacos, em Presidente Prudente (SP).
Com um extenso currículo e anos de experiência como professora e pesquisadora, Édima de Souza Mattos é uma das pioneiras na luta antirracista no Brasil, tendo a população negra como prioridade do seu trabalho acadêmico e profissional.
De acordo com a Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), na qual a professora lecionou por anos, ela fez parte da história da instituição, dedicando décadas de sua vida ao ensino e à formação de inúmeros profissionais.
“Muitos dos professores que hoje compõem nosso corpo docente tiveram a oportunidade de conhecê-la e conviver com seu compromisso, experiência e contribuição para a educação. Neste momento de tristeza, expressamos nossos sentimentos aos familiares, amigos e a todos que compartilharam de sua trajetória profissional e pessoal. Que sua memória permaneça viva por meio do legado que deixou na vida de tantos alunos e colegas”, pontuou a universidade.
A Prefeitura decretou luto oficial por três dias, em Presidente Prudente, em sinal de pesar pelo falecimento de Édima.
O velório ocorre nesta sexta-feira (12), a partir das 7h, na Casa de Velório Athia, no Jardim Bela Dária, em Presidente Prudente. Já o sepultamento está marcado para as 13h40, também nesta sexta-feira, no Cemitério Municipal São João Batista, na Vila Liberdade, em Presidente Prudente.
Édima nasceu em 8 de setembro de 1942, em Arapiranga, no interior da Bahia. Até seu último dia de vida, estava na ativa, liderando atividades envolvendo a Unoeste e o Ministério da Saúde. Foram mais de 60 anos dedicados ao ensino, dos 16 aos 83.
O legado que deixou é incomensurável e não se restringe à educação em todos os níveis. Também contempla a luta contra a discriminação racial, com ações e posicionamentos firmes, sem vitimização. Deu o exemplo de que o negro pode chegar onde quiser, com doutorado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP).
No segmento da educação, surgiu seu engajamento na militância contra a discriminação, nos anos 1990, em Presidente Prudente. Visitou escolas para estimular os afrodescendentes a não desistirem dos estudos, num período em que o índice de evasão chegava a 68%.
Em junho de 2022, esteve entre 14 mulheres homenageadas com o Prêmio Ruth de Souza, da Secretaria da Justiça e Cidadania, através do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo e com o apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do governo paulista.
Em março deste ano, esteve em Brasília (DF) no evento do Instituto de Desenvolvimento Nacional da Aliança pela Saúde (iDNASaúde) que marcou mais uma conquista do Núcleo Avaliação de Tecnologia em Saúde (NATS), da Faculdade de Medicina da Unoeste.
Foi estabelecido novo acordo para emissão de Pareceres Técnico-Científicos (PTCs) junto ao Sistema Único de Saúde (SUS), através de avaliação de dossiês técnico-científicos para decidir se uma tecnologia (medicamento, dispositivo, procedimento, vacina, exame etc.) deve ser incorporada, alterada ou excluída do rol de serviços e do SUS.
Édima Mattos teve atuação preponderante e decisiva para a Unoeste assinar a carta-convite junto ao Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), que é o Escritório Regional para as Américas da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Outro esforço estava centrado em estudos sobre anemia falciforme, doença negligenciada, prevalente em negros e também hereditária (passa dos pais para os filhos), caracterizada pela alteração dos glóbulos vermelhos do sangue, causando anemia. Seu sonho era ver a implantação do Ambulatório de Anemia Falciforme, no Hospital Regional (HR), em Presidente Prudente.

Outra coordenação em pesquisa de relevância na área de saúde esteve voltada às mulheres privadas de liberdade na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista (SP), sobre Determinantes Sociais e Saúde (DSS) em relação à saúde mental e à sífilis, com recomendações de protocolos à Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo (SAP-SP).
Na área de extensão, desenvolveu projetos voltados à ação cidadã de resgate do ser humano e à saúde de vulneráveis. Um dos projetos é sobre informática e cidadania, em locais de acolhimento, para promover sinergia de inclusão social; premiado pelo Encontro Nacional de Ensino, Pesquisa e Extensão (Enepe), da Unoeste, em 2017.
O nascimento de Édima, em Arapiranga, foi na época de exploração de ouro na cidade localizada a 400km da capital Salvador (BA). Seu pai era o minerador João Francisco de Souza e sua mãe, a dona de casa Adozinha Amélia de Oliveira Souza. Édima foi a primogênita de três filhos, sendo seus dois irmãos já falecidos.
Seus pais trocaram de interior: o baiano pelo paulista, atraídos pelo trabalho em lavouras de algodão. A menina tinha dois anos quando sua família mudou-se para Ribeirão dos Índios (SP) e depois de três anos foi para Presidente Bernardes (SP), onde estudou até o terceiro ano primário.
Quando tinha 10 anos, o destino foi Presidente Prudente. Os estudos continuaram na Escola Estadual Professor Adolpho Arruda Mello e no Instituto de Educação Fernando Costa, ambos no Centro, onde fez o ensino normal. Ao mesmo tempo, estudava no Centro Cultural Brasil-Estados Unidos.
Aos 16 anos, lecionava inglês na Escola de Comércio Joaquim Murtinho. Sua primeira formação em nível superior foi na Faculdade de Letras, em Adamantina (SP). Depois, fez pedagogia na Faculdade de Artes, Ciências, Letras e Educação (Faclepp), da Unoeste. Antes do mestrado e do doutorado, fez várias especializações.
Em 1970, casou-se com o contador bancário Eli Dolce Justo de Mattos. Tiveram três filhos e todos ingressaram no ensino superior aos 17 anos. Eduardo é engenheiro químico, casado com Lency; Elizangela é engenheira de alimentos; e Elaine é tabeliã. São vários netos.
Mesmo depois de seus três filhos adultos e formados, Édima contava ter passado pela dor do parto mais duas vezes. A primeira, quando fez a defesa pública de sua tese no doutorado em letras, em 2011, na Unesp, no campus de Assis (SP).
Posteriormente, ao ingressar no pós-doutorado em uma das mais importantes instituições de ensino superior do país: a USP. Ostentar o título de doutora tem o valor social de atingir o mais alto degrau na formação acadêmica. Mas, para o negro e sua descendência, esse é um patamar ainda mais elevado.
O percurso é mais difícil para o negro, por razões históricas, culturais e socioeconômicas. Embora a maior parte da população brasileira seja afrodescendente (55,8%), apenas 16% dos 400 mil professores de universidades são desse grupo. A professora doutora Édima de Souza Mattos fez parte dessa minoria.
Mas esse menos é mais, por se tratar de alguém que tem lutado pela valorização do negro, com destacada militância no cenário estadual desde 1988, ano do centenário da abolição da escravidão no Brasil. Uma luta de quem acreditava na construção de um mundo melhor, cuja atuação esteve centrada na educação.
Aposentada na rede estadual de ensino, manteve-se ativa na rede particular, com mais de 35 anos de Unoeste.
Com atuação no ensino superior, buscou aprimoramento profissional e obtenção de titulações. Quando fez mestrado, deixava Assis às 17h30 para entrar na Unoeste às 19h. No doutorado, a luta não foi diferente. Muitas vezes, entre estudar e se alimentar, ficava com a primeira opção, não exatamente por escolha, mas por necessidade.
Ao defender a tese sobre literatura e jornalismo de Eça de Queirós (1845–1900) e se tornar doutora, Édima Mattos recebeu convite para ministrar oficina em Portugal, no “Colóquio Internacional de Thormes/Eça e o romance oitocentista: transformações cinematográficas e televisivas”, em junho de 2016.
