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Perder as chaves é normal. Esquecer para que elas servem, não

Quando os esquecimentos começam a preocupar.

Por: Joselene Alvim
22/06/2026 às 08:00
Esquecimento
Esquecimento Foto: Danie Franco/unsplash

Não sabemos exatamente quando começa, mas, quando percebemos os primeiros esquecimentos, costumamos atribuí-los à idade, ao cansaço. Afinal, quem nunca esqueceu algo? 

Depois, um dia, notamos algo diferente nesses esquecimentos: repetição de histórias, dificuldade para lembrar nomes, perguntas até mesmo sobre algo que acabamos de explicar. E não é só isso. Percebemos que a pessoa guarda objetos em lugares incomuns, faz uso inadequado de medicamentos e, por vezes, não reconhece trajetos que antes percorria sem qualquer problema. E isso assusta.

As falhas de memória são comuns no dia a dia de qualquer um de nós. A ansiedade, por exemplo, quando elevada, pode interferir em nossa atenção durante as atividades diárias. Da mesma forma, períodos de estresse ou preocupação.

Talvez por isso, ou por um mecanismo de negação, quando pessoas idosas – especialmente aquelas com quem convivemos diariamente - apresentam falhas de memória, tendemos a atribuí-las ao envelhecimento. De fato, com o passar dos anos, ocorrem mudanças naturais na forma como processamos e recuperamos informações. Nossa memória não armazena tudo o tempo todo. 

Entretanto, é importante atento a alguns sinais para diferenciar o envelhecimento saudável de um possível quadro demencial. Assim, esquecer onde guardou as chaves, por exemplo, não é preocupante. Porém, ao encontrá-las, não saber como utilizá-las ou para que servem já é um sinal de alerta. 

Outros indícios incluem confusão sobre os dias da semana ou meses, dificuldade para lembrar acontecimentos importantes, perder-se em locais conhecidos, repetir várias vezes a mesma pergunta, problemas para encontrar palavras durante uma conversa, dificuldade para gerenciar as próprias finanças ou os medicamentos. 

É claro que esses sintomas não podem ser avaliados de forma isolada, uma vez que é preciso observar o contexto em que acontecem, a frequência e o impacto sobre o comportamento e a qualidade de vida do idoso. 

A demência - sendo a Doença de Alzheimer uma de suas formas – pode comprometer, além dos fatores descritos, funções como o raciocínio, a linguagem, a atenção, a memória e até mesmo aspectos da personalidade. Existem diversos fatores de risco associados ao desenvolvimento da doença, que é insidiosa e progressiva. Ainda assim, qualquer pessoa pode desenvolvê-la, independentemente de sexo, condição socioeconômica, cultura ou credo. 

De qualquer forma, não é fácil reconhecer que aquele familiar, antes tão dinâmico e independente, esteja se tornando cada vez mais dependente e, o que é mais doloroso, perdendo aos poucos a capacidade de compreender e interagir com o mundo. Talvez por isso muitos familiares demorem a perceber a gravidade e acabam normalizando os esquecimentos ou outras alterações de comportamento. É uma realidade difícil de encarar.

No entanto, essa negação deve ter limites para não impedir que as famílias busquem ajuda profissional, como médicos e neuropsicólogos. Confirmando-se ou não o diagnóstico de demência, é fundamental adotar estratégias que proporcionem uma melhor qualidade de vida tanto para o idoso quanto à família.

 Joselene Alvim
Joselene Alvim
Jô Alvim é psicóloga clínica. Mestre em Educação (UNESP). Especialista em Neuropsicologia (USP). Apaixonada por comportamento, é professora de graduação e pós-graduação.