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O vício em apostas

Nosso cérebro possui um sistema de recompensa que, quando acionado, libera dopamina, um neurotransmissor responsável pela sensação de prazer e motivação.

Por: Joselene Alvim
13/07/2026 às 08:01
Apostas |
Apostas | Foto: Shubham Dhage - unsplash

Quando o assunto é vício - seja álcool, drogas, tecnologia ou jogos, para citar alguns exemplos - qual dependente nunca disse: “Eu parar quando quiser”? Ou justificou que, se não conseguiu parar, foi porque não quis de verdade? Só que, na prática, não é tão simples. Quando há uma dependência, nem sempre basta querer. Mesmo quando a pessoa se dá conta dos prejuízos financeiros e das consequências negativas nas relações interpessoais, familiares e profissionais, ela não consegue interromper esse comportamento.

As plataformas digitais de apostas esportivas, nos últimos anos, passaram a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros. Com promessas de ganhar dinheiro fácil divulgadas por influenciadores digitais, patrocínios de grandes clubes de futebol e propagandas, apostar tornou-se uma atividade bastante acessível, ao alcance da palma da mão por meio dos celulares. 

Só que é justamente esse fácil acesso que pode fazer com que a atividade deixe de ser apenas uma diversão e se transforme em um comportamento compulsivo. Em muitos casos, quando isso acontece, reconhecer o momento de parar pode ser uma tarefa muito difícil. 

O vício em apostas, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não está atrelado simplesmente a um descontrole financeiro. Os jogos são envolventes e projetados para esse fim. A neurociência ajuda a entender esse processo. Nosso cérebro possui um sistema de recompensa que, quando acionado, libera dopamina, um neurotransmissor responsável pela sensação de prazer e motivação. Durante uma aposta, esse sistema é estimulado intensamente, levando a pessoa a repetir o comportamento sem se dar conta de que esta é uma estratégia de recompensa do próprio jogo. E, mesmo quando perde, o cérebro continua motivado a tentar novamente, alimentando a ilusão de que na próxima aposta vai dar certo. No entanto, essas tentativas, mesmo que sem sucesso em recuperar o que foi perdido, apenas acumulam dívidas significativas, levando a pessoa a gastar suas economias, recorrer a empréstimos e, em situações mais graves, comprometer o patrimônio familiar. 

Além das perdas financeiras, o vício em apostas traz outras consequências, como sentimento de culpa, ansiedade, isolamento, irritação e até depressão. Não é incomum os dependentes minimizarem o problema e mentirem sobre o tempo e o dinheiro gastos. 

É importante destacar que, por sermos diferentes, nem toda pessoa que joga desenvolverá uma dependência. Cada um reage de maneira diferente. Características de personalidade, ambiente em que a pessoa vive, histórico familiar de dependências, impulsividade, baixa tolerância à frustração e estratégias de fuga diante dos problemas, são fatores que devem ser considerados. 

Quando algo aparentemente inofensivo ou tratado apenas como lazer passa a impactar negativamente as emoções e a controlar os pensamentos, é hora de buscar ajuda. A superação vem com o auxílio de pessoas próximas, mesmo nos períodos de recaídas, aliado ao tratamento médico e psicoterápico. Reconhecer quando um comportamento causa sofrimento e modificá-lo, é um ato de cuidado mais saudável consigo mesmo.

 Joselene Alvim
Joselene Alvim
Jô Alvim é psicóloga clínica. Mestre em Educação (UNESP). Especialista em Neuropsicologia (USP). Apaixonada por comportamento, é professora de graduação e pós-graduação.