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Quando o amor vira controle

Relacionamentos saudáveis são permeados pelo respeito ao outro, imperando o diálogo.

Por: Joselene Alvim
10/08/2026 às 08:00
O cuidado não é sinônimo de imposição |
O cuidado não é sinônimo de imposição | Foto: Nadine E/unsplash

À primeira vista, pode parecer uma frase de alerta, algo como: “cuidado com aquela sua amiga porque percebi que ela tem inveja de você”, para em seguida justificar com “só estou falando isso porque não quero que você sofra”. 

A intenção por trás deste toque pode ser real, mas quando se trata de relacionamento afetivo é preciso prestar atenção, pois a preocupação do outro pode mascarar uma manipulação, nem sempre percebida de imediato. Um risco silencioso.

A violência psicológica frequentemente acontece de maneira gradual. É uma forma de abuso sutil e insidiosa. Claro que conflitos ocorrem mesmo em relacionamentos saudáveis. Discordar de pontos de vista ou até mesmo interpretar acontecimentos de formas diferentes não significa, por si só, violência psicológica. A diferença está na repetição, geralmente caracterizada por desqualificação, invalidando a percepção da outra pessoa como forma de exercer o poder e o controle. 

Em casos assim, quando a vítima tenta argumentar e questionar a situação, o abusador tende a virar o jogo e a culpá-la mais ainda, como se apenas uma versão fosse a correta e, neste caso, a dele. Fragilizada, a vítima sente-se incapaz de fazer algo e passa a evitar alguns assuntos para não provocar discussões, o que a torna mais dependente, além de confusa, uma vez que o abusador, depois de tratá-la com total desrespeito, pede desculpas, prometendo mudanças.

Não é fácil reconhecer este padrão, até porque a violência, socialmente, é sempre associada à agressão física. E, como no caso da violência psicológica ela frequentemente é justificada como demonstração de preocupação ou cuidado, fica difícil a vitima reconhecer a armadilha em que se encontra. Mas o efeito é devastador na autoestima, levando-a a duvidar da própria capacidade de tomar decisões ou fazer algo certo. 

Muitas mulheres vivem esta realidade e o maior equívoco é acreditar que uma agressão é acompanhada sempre de gritos. Ignorar, não conversar por dias ou utilizar o silêncio como punição são comportamentos que não devem ser romantizados, considerando que o outro está apenas refletindo sobre a situação. Com isso, elas ficam presas em relações que, emocionalmente, não existem mais. 

Relacionamentos saudáveis são permeados pelo respeito ao outro, imperando o diálogo. O cuidado não é sinônimo de imposição. Há uma diferença importante: quem impõe, controla. O cuidado vem com espaço para entender o ponto de vista do outro, no desejo genuíno de construir.

 Joselene Alvim
Joselene Alvim
Jô Alvim é psicóloga clínica. Mestre em Educação (UNESP). Especialista em Neuropsicologia (USP). Apaixonada por comportamento, é professora de graduação e pós-graduação.