Ao vivo Ao Vivo

As mentiras que contamos

Por: Joselene Alvim
17/08/2026 às 08:01
Mentira
Mentira Foto: Peter67 - Pixabay

Quem diz que nunca mente está mentindo, mesmo que a intenção por trás dessa fala seja demonstrar que é uma pessoa justa com seus pares e que a verdade deve estar acima de tudo. Mas, acredite: todos nós mentimos! 

E, quando afirmo isso, não me refiro a histórias que prejudicam o outro, repletas de maldade ou que tragam consequências graves. Refiro-me àquelas que contamos para escapar de uma situação desconfortável, evitar uma bronca, ou até mesmo para proteger alguém. Por isso, algumas mentiras são socialmente aceitas.

A mentira faz parte da experiência humana. Muitas vezes, ela surge do medo: desde o medo de decepcionar o outro até o medo de não enfrentar as consequências dos próprios atos. Do ponto de vista psicológico, a mentira funciona, frequentemente, como um mecanismo de defesa do ser humano, protegendo-o de uma emoção com a qual considera difícil de lidar. 

São inúmeras as razões que levam uma pessoa a criar uma história e, por isso, não dá pra ter uma explicação tão simplista. Quer um exemplo? Quantas vezes você disse que estava tudo bem quando, na verdade, não estava? Certamente, fez isso como uma forma de demonstrar força ou, talvez, por vergonha diante de uma situação pela qual estava passando.

Um dos problemas da mentira é quando precisamos contar outra mentira para sustentar a primeira, levando a um desgaste emocional. É preciso, nesse caso, ter boa memória para relatar a história original e não ser descoberto. Entretanto, há aqueles que mentem com tanta frequência que a mentira passa a fazer parte dos seus relacionamentos e, com o tempo, perdem a noção do que é verdade e do que não é.

Contudo, momentânea ou não, a mentira traz uma consequência negativa que dificilmente é percebida no momento em que a história é criada: ela pode afastar o outro. Relacionamentos saudáveis são pautados pela confiança, que vai se diluindo quando a outra pessoa começa a perceber contradições na mesma história. E sabemos bem que recuperar a confiança não é tão simples. Há casos em que, depois de perdê-la, ela nunca mais é resgatada. 

Mas, quando falamos de ser sinceros, há um ponto importante a considerar: dizer a verdade requer cuidado. É preciso maturidade emocional para saber como e quando falar determinados assuntos sem ser cruel. 

O fato é que, desde cedo, aprendemos que não devemos fazer com o outro o que não gostaríamos que fizessem conosco, e não mentir é parte disso. Mas há uma pergunta mais importante sobre este assunto: e nós? Qual é a mentira que contamos pra nós mesmo e que, no fundo, mesmo já tendo descoberto a verdade, continuamos a agir e a viver como se aquilo fosse real, simplesmente porque não estamos preparados para aceitar a realidade?

Encarar a verdade, entre outras coisas, nos cobra mudanças, e estas sempre são desconfortáveis porque implicam em escolhas e, consequentemente, perdas. Talvez por isso muitos prefiram permanecer no autoengano. 

Aqui vale refletir sobre um trecho da música “Quase sem querer”, do grupo Legião Urbana, que diz que “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”.

 Joselene Alvim
Joselene Alvim
Jô Alvim é psicóloga clínica. Mestre em Educação (UNESP). Especialista em Neuropsicologia (USP). Apaixonada por comportamento, é professora de graduação e pós-graduação.